Apesar da crise que anda por aí a assustar toda a gente, tipo papão, eu e o meu marido decidimos trocar de carro! E vai daí começámos a explorar os seis milhões de sites de carros novos, semi-novos, usados, maltratados, mutilados, desmontados e amontoados com as suas seiscentas mil opções de modelo, cor, marca, ano, and so on and so on... Escusado será dizer que ao fim de duas horas de navegação por esses sites estávamos mais indecisos do que quando começámos a procurar! De tal forma que o meu marido me passou o PC e disse "escolhe tu que já estou cansado". Quando um homem delega a tarefa de encontrar um carro à sua mulher, das duas uma: ou está COMPLETAMENTE esgotado da procura ou não está a pensar conduzir tão cedo!
Ainda por cima somos a noite e o dia no que respeita a carros... ele gosta deles espaçosos, robustos, potentes e elegantes. Já eu gosto mesmo é de um carrinho pequenino, prático, fiável e económico. Do que eu gostava mesmo era de um Smart! Mas o Smart foi sonho que ficou por isso mesmo... porque com uma filha pequena, um rapagão de 15 anos e um marido XXL é incomportável ter um carro assim.
Mas também não me importava nada, nada, nada de ter um Audi A2! Gosto tanto do carro que se me apanho dentro de um, sento-me ao volante, fecho os olhos e faço "Vrum! Vrum! Vrum!" que só fingir que o conduzo já é tão bom! Pena é que também não seja tão espaçoso como precisamos...
Actualmente temos um Seat Ibiza. Não é que o nosso pópó seja mau de todo. É bonito, jovem, desportivo e elegante.Mas é, ainda assim, um pópó... e nós queremos troca-lo por um carro de família. Queremos um carro com uma boa bagageira, para não perpetuar a saga que agora vivo de tira-o-ovo, desmonta-o-carrinho, tira-as-rodas-do-carrinho,esvazia-a-baga
Depois de nos termos saturado de pesquisar carros na net, decidimos mudar o modo de procura para a versão live.
E é então que começa o episódio que vos quero contar!
O meu marido encontrou um carro de que gostou através de um conhecido - uma Opel Vectra station azul escura - e, apesar de praticamente a ter colocado de início fora de questão por causa do preço elevado (18 mil biscas!!! ai a crise, ai a crise!) - decidiu levar-me a ver o carro um destes dias.
Antes de chegarmos disse-me "Olha, o tipo que vai mostrar-nos o carro é vendedor no stand por isso vai com certeza tentar impingir o carro. Se não gostares diz que já temos um negócio melhor em vista, uma ford C-Max, e pronto."
"Fácil" pensei. Mal sabia eu o que me esperava.
Fiquei no carro a tirar o cinto e a pedir desculpa às minhas pernas pela viagem acabada de fazer.
Mal saí, apareceu o tal vendedor. Olhos bem arregalados, sorriso muito aberto e a passo largo, assim vinha ele na minha direcção.
Apertou-me a mão com uma firmeza e fez uma expressão de satisfação tal que parecia que já me tinha vendido o carro. Apontou na direcção da station e disse cheio de confiança "ora aqui está ele!". Como se nos estivesse a mostrar a oitava maraviha do mundo!
Tenho de ser sincera. Nada do que ele me pudesse dizer sobre o carro me ia convencer a compra-lo. Além de achar o carro demasiado grande, o preço estava mesmo fora de questão.Mas foi o modo como que ele descreveu o carro - aquele discurso sobre o quão fabuloso é o carro,"e reparem nestes cromados, os faróis chenon, o cruise control, o não-sei-quê do não-sei-quantos do bla-bla-bla, que o carro é tão bom que até os outros Opeis Astra têm inveja" como se ali estivesse a oportunidade de uma vida que me fez ficar irredutivel na minha decisão de não o comprar! Se o carro é tão bom, porque raio está à venda em segunda mão???
Lembram-se de quando erámos mais novos e queríamos esconder uma qualquer transgressão? Levávamos horas a maquinar até temos AQUELA mentira totalmente pensada. Assim que chegamos a casa e mal a nossa mãe nos pergunta onde estivémos vomitamos de imediato 3 minutos de um discurso ensaiado com a maior das convicções e a expressão mais relaxada do mundo para no fim sermos apanhados com um simples: "Tens a certeza?"
Assim estava o nosso vendedor ... nos seus 3 minutos de glória!
Depois de ter gabado o carro até à exaustão virou-se para mim e disse, a querer piscar o olho: "hã? hã? - leia-se nas entrelinhas: "Passaste-te com a bomba não foi? Tájjjj maluca!"
Ao que eu respondi com o discurso já pré combinado com o marido do "ah, e tal... temos outro negócio em vista. Uma ford focus C-max e tal..."
Ó meus amigos... o que eu fui dizer!! Mal eu acabo de dizer estas palavras olho para o individuo e vejo que os musculos da cara se contraíram, os olhos ficaram raiados de sangue e as sobrancelhas se arquearam de tal modo que parecia que tinha ofendido a mãezinha dele!
Tenho quase a certeza que a primeira coisa que o cérebro dele processou como resposta à minha frase foi um sonoro: FODA-SE!!
Nem dois segundos depois e já ele tirava os Ases cá para fora: "Mas é que nem compare!!! Que o C-Max é muito pequeno!! Tem uma bagageira mínima que nem o carrinho do bébé lá cabe!! (essa lata velha!) Já viu a bagageira deste? já viu? já viu? (e adicionou mais 3 ou 4 elogios ao carro pelo meio).
Apeteceu-me dizer "Já vi, já amigo! Se eu fosse da família dos Corleonne já só me faltava a corda, a pá e a cal para me desfazer dos corpos. E até podia matar aos pares, que bagageira era coisa que não me faltava!"
Resolvi esgrimir timidamente outro argumento contra. Sei lá... chamem-me má mas apeteceu-me ve-lo dançar um bocado. Se há coisa com que afino é quando sinto que me estão a querer passar a perna. Acreditem que basta um ambiente acolhedor, uma conversa despreocupada e num tom amigável para me conseguirem impingir até um tractor! Agora... se começam com aquela conversa do "melhor do mundo, que toda a gente quer, que está praticamente vendido a não sei quem, vejam lá que se vai embora, que isto é melhor que um avião da TAP, que eu nem sei como ainda não o vendi, se calhar até fico com ele!" ... aí traço o meu limite!
Então vai daí e disse-lhe: "sabe, eu acho o carro muito bonito, mas na verdade não io ia conseguir conduzir. É demasiado grande para mim."
E ele logo - e ainda com aquela expressão no olhar, tipo AI A MERDA - "mas sente-se!! Sinta o conforto do banco! Veja como ele se ajusta! E repare que tem sensores de estacionamento à frente e atrás!"
O banco ajustar, ajustava... que quando me sentei dava para guardar 3 malas de viagem entre mim e o pedal da embraiagem. Lá cheguei o banco todo para a frente mas senti-me a coisa mais ridicula deste mundo!
Estão a imaginar uma Opel Vectra station a passar na rua e de repente parece que é a nova versão do Kit e que ninguém a vai a conduzir? Mas então piscam os olhos com força duas vezes e eis que reparam que afinal vai mesmo alguém ao volante... e aí deitam rapidamente a mão ao telemóvel guardado no casaco e pensam "tenho de avisar alguém que vai uma criança a conduzir aquele carro!" Mas depois piscam novamente os olhos duas vezes e eis que reparam que é uma mulher que ali vai coladinha ao volante, com o banco a aparecer a meio do vidro da janela da frente , para então sorrirem e pensarem: "Que ridiculo..."
Pois...
Fomos salvos pelo gongo...ou melhor pelo choro da minha filha, que na hora H - aquela em em que eu já não tinha mais argumentos simpáticos e ele já deixava fugir uma gotinha de suor dos nervos - decidiu chorar de saturação (como te compreendo minha filha) e tivémos de nos pôr ao caminho.
No fim ele ainda disse "quando quiserem venham experimentar! Dar uma voltinha! Vão ver que vão adorar!"
Sim, nós adorar, adoramos.Agora nada apaga o facto do carro ser tão grande que duvido que me caiba na garagem, tão caro que o mais certo era ter de iniciar o meu marido na prostituição para o pagar e tão austero que me faz lembrar carro de funerária...
Ele (mais o seu super mega ego de vendedor) deve ter ficado a pensar que foi por um triz,uma unha negra! Não fosse aquela anã e tinha vendido o carro hoje, caraças!
... mal sabias tu que o que eu queria mesmo... era um Smart!